Drowned Lover

Young men dream in the garden of the dead, with flowers growing from their heads, photo by Duane Michals

 
 

Cara minha inimiga, em cuja mão
pôs meus contentamentos a ventura,
faltou-te a ti na terra sepultura,
porque me falte a mim consolação.
Eternamente as águas lograrão
a tua peregrina fermosura;
mas, enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minh’alma te acharão.
E se meus rudos versos podem tanto
que possam prometer-te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro,
celebrada serás sempre em meu canto;
porque enquanto no mundo houver memória,
será minha escritura teu letreiro.

Luís Vaz de Camões

 
 

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Dearest enemy, so often unkind,
my life was in your hands, until that wave
of the sea deprived you of an earthly grave,
depriving me, as well, of peace of mind.
The selfish drowning waters keep us apart,
enjoying your lovely beauty within the vast
cold sea, but as long as my broken life will last,
you’ll always be alive within my heart.
And if my ragged poems can last for long
enough, your love, so spotless, will persist
forever and ever, as I, on your behalf,
will praise you always with my singing song;
as long as human memories exist,
my poems will be your missing epitaph.

Translation by Richard Zenith

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Lost From Sight and Lost From Hope

Photo series by Duane Michals

 
 

Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.

Luís Vaz de Camões

 
 

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Oh how long, year after year,
my weary journey has kept on going!
How short a space until my brief
and useless human rambling ends!

Time wastes away and my ruin increases;
a remedy I used to have is gone.
If we can judge from past experience,
every large hope is a grand illusion.

I chase some good that can’t be had:
when halfway there, I’ve lost the trail;
falling a thousand times, I despair.

It flees, I lag; and if, in my lagging,
I look up to see if it’s still there,
it’s lost from sight and lost from hope.

Translation by Richard Zenith

The Lover Becomes The Thing He Loves

Photo by Duane Michals

 
 

Transforma-se o amador na cousa amada
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada
Que mais deseja o corpo alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.

Mas esta linda e pura Semidea
Que como o acidente em seu sujeito,
Assi com a alma minha se conforma;

Está no pensamento como ideia;
E o vivo, o puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Luís Vaz de Camões
1595

 
 

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The lover becomes the thing he loves
by virtue of much imagining;
since what I long for is already in me,
the act of longing should be enough.

If my soul becomes the beloved,
what more can my body long for?
Only in itself will it find peace,
since my body and soul are linked.

But this pure, fair demigoddess,
who with my soul is in accord
like an accident with its subject,

exists in my mind as a mere idea;
the pure and living love I’m made of
seeks, like simple matter, form.

Translation by Richard Zenith

May Love Seek Out New Arts

A morte de Camões (Death of Camões), Domingos Sequeira, 1825

 
 

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n’alma me tem posto.
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e doi não sei porquê.

Luís Vaz de Camões

 
 

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May Love seek out new arts, devise a plot
to kill me, and discover new disdain;
for robbing me of hope will be in vain,
since it can scarcely take what I’ve not got.

Behold the kind of hopes on which I stand!
And see how perilous my certainties!
For I fear neither change nor enmities,
ploughing the sea, lost far from any land.

And yet, although one cannot pay grief’s toll
where hope is gone, still Love has hidden there
for me an ill, that kills and can’t be seen;

how long ago did Love place in my soul
I don’t know what, born I don’t know where,
come I don’t know how, nor why it aches so keen.

Translation by Richard Zenith

Love Is a Fire That Burns Unseen

Flaming June, Frederic Leighton, 1895. Ponce Museum of Art (Puerto Rico).
It is thought that the woman portrayed alludes to the figures of sleeping nymphs and naiads the Greeks often sculpted. The (toxic) Oleander branch in the top right, symbolizes the fragile link between sleep and death

 
 

“Amor he hum fogo que arde sem se ver;
He ferida que doe e não se sente;
He hum contentamento descontente;
He dor que desatina sem doer;

He hum não querer mais que bem querer;
He solitario andar por entre a gente;
He hum não contentar-se de contente;
He cuidar que se ganha em se perder;

He hum estar-se preso por vontade;
He servir a quem vence o vencedor;
He hum ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar póde o seu favor
Nos mortaes corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo Amor?

 
 

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“Love is a fire that burns unseen,
A wound that aches yet isn’t felt,
An always discontent contentment,
A pain that rages without hurting,
A longing for nothing but to long,
A loneliness in the midst of people,
A never feeling pleased when pleased,
A passion that gains when lost in thought.

It’s being enslaved of your own free will;
It’s counting your defeat a victory;
It’s staying loyal to your killer.

But if it’s so self-contradictory,
How can Love, when Love chooses,
Bring human hearts into sympathy?”

Luís Vaz de Camões

Rimas (translated by Richard Zenith)